Escrever um review de Crimson Desert é uma tarefa bem complicada. Trabalho com isso desde 2017 e nunca vi um jogo tão divisivo como esse. E sim, Death Stranding e Red Dead Redemption 2 nem passam perto apesar de também terem gerado polarização.
Antes de continuar, em nome da transparência, preciso deixar claro que o jogo não clicou comigo, logo, não progredi tanto na campanha. Testei vários das dezenas de sistemas do game e acredito ter sido o suficiente para tecer uma opinião sobre o mesmo.
A narrativa
A história de Crimson Desert escancara que o jogo nasceu originalmente como um MMO e, principalmente, que essa é a expertise dos escritores da Pearl Abyss. A estrutura de missões, a direção das cenas, as expressões faciais e até o sistema de ativação de conclusão de objetivos são incompatíveis com a natureza singleplayer que o jogo passou a ter.
Graças a isso, o jogo meio que se divide em dois com um nível de qualidade e funcionamento completamente opostos. Se você decidir fazer apenas as missões de história ele é um jogo, contudo, se você decidir perambular pelo mundo aberto, explorando os pontos de interesse e conhecendo os habitantes do mundo, ele é um jogo de mundo aberto excelente.

É quase como se ele fosse um simulador de idade média mas com elementos de fantasia. Praticamente em qualquer lugar que você vai, tem algo a ser descoberto ou a ser feito. Sejam equipamentos, minigames, uma missão ou um acampamento oculto de bandidos, o jogo recompensa bem a curiosidade.
O problema, e que explica o caráter divisivo do jogo, é que essa proposta não vai agradar a todos. Títulos como Death Stranding, Red Dead Redemption 2 e Kingdom Come: Deliverance 2 possuem uma estrutura narrativa coesa e de qualidade, logo, até o ato de se “perder” pelo mundo concluindo tarefas ganha propósito visto que existe um fim bem definido.
Crimson Desert é como uma fusão de MMO e sandbox e o propósito maior acaba sendo evoluir os personagens e transformar eles em espécie de Deuses no que diz respeito a escala de poder. Para isso, você vai ter que investir mais de uma centena de horas e bastante paciência, visto que se trata de um game slowburn. Ele demora MUITO pra engrenar, o que serve como uma barreira natural para separar os desistentes dos jogadores que de fato estão apreciando a experiência.
E minha opinião é bem definitiva e clara quanto a isso. Se você não tem paciência ou tempo para gastar 100, 200 horas em Crimson Desert, deixe o jogo pra depois e escolha uma outra experiência. Considerando um tempo médio de 2-3h por dia pra jogar, estamos falando de 100 dias, mais de 3 meses, em um único jogo, com uma narrativa mal estruturada onde o objetivo central é evoluir os personagens. É fácil de entender a natureza divisiva de Crimson Desert.
A jogabilidade
Vou começar a falar da jogabilidade discordando de um ponto levantado nas redes sociais. Eu não achei os controles de Crimson Desert confusos. O que acontece no jogo é a quantidade absurda de comandos e mecânicas que precisam ser aprendidos.
Por ser mais complexo (e não confuso), do que a maior parte dos AAAs dos últimos 5 anos ou mais, é natural que o jogador médio sinta estranheza nas horas iniciais. Mas após desbravar esse começo, lá pelas 10 horas de jogo os comandos se tornam intuitivos. É claro que existem certas “falhas” de design que entregam que os comandos foram imaginados por desenvolvedores de MMOs. Correr e pular no início mesmo chega a ser contraintuitivo. Fora ter que segurar o botão quadrado pra coletar itens do chão, visto que o ato de pressionar o botão faz o personagem pular.

Esses pequenos pormenores existem mas não afetaram minha experiência. Minha maior ressalva com a jogabilidade de Crimson Desert reside no combate. O posicionamento da câmera e uma certa falta de impacto ao batalhar contra inimigos comuns me dão vontade de evitar esses conflitos menores.
O curioso é que temos outra dualidade aqui. Enfrentar inimigos comuns é um porre mas os embates contra chefes são bem legais. Eles apresentam um bom visual e mecânicas de jogabilidade. Fugindo do combate, preciso enaltecer um aspecto fantástico de Crimson Desert.
A interatividade do jogo é absurda. Podemos segurar e acariciar animais, escalar árvores para colher frutos, escalar montanhas e telhados, domar animais entre outras dezenas de coisas. O mundo do jogo é bem palpável e, infelizmente, isso ainda é raro de se encontrar em open worlds. Quanto mais interativo um mundo é, mais imersivo ele se torna e mesmo não sendo uma experiência que tenha casado com meus gostos, considero injusto não reconhecer o nível de interatividade existente em Crimson Desert. E não só com o cenário em si, mas com o mundo como um todo.
O conteúdo secundário
É a partir de agora que esse review se torna mais complicado e, quem sabe, polêmico. Sim, é verdade que existe MUITO a ser feito em Crimson Desert. Praticamente em qualquer ponto que você olhe, existirá uma atividade a ser concluída.
Seja missões secundárias, capturar fugitivos, eliminar acampamentos inimigos, pescar, participar de minigames (que são incrivelmente divertidos), sempre vai ter algo a ser feito no jogo. E o mais interessante e talvez importante é que o jogo consegue afastar o sentimento de repetição. As atividades se alternam bem, logo, você sempre estará fazendo coisas diferentes.

O que mais me incomodou é que não consegui enxergar o aspecto utilitário de muitos desses conteúdos. Até as armaduras e armas que encontramos em sua maioria são belíssimas, mas sem um uso propriamente dito. Infelizmente ou felizmente, vai depender de você, Crimson Desert conversa com um tipo bem específico de jogador.
Se você, como eu, gosta de experiências mais fechadas no sentido narrativo da coisa, com atividades secundárias que são, majoritariamente utilitárias e apoiadas em uma campanha, vai ser difícil se encantar aqui. E foque no difícil, não impossível.
Outro ponto e esse é um tanto óbvio, é que o jogo é meio que o inimigo dos jogadores que possuem sessões pequenas pra jogar. Se você só tem 7 a 8 horas por semana pra jogar, é melhor ir buscar outra experiência. De verdade. Em uma sessão de 5 horas, o sentimento que fiquei é o de que não fiz quase nada. Crimson Desert é um jogo pra quem tem MUITO tempo de sobra.
Agora, pra não encerrar esse tópico com um sentimento fúnebre, preciso exaltar o senso de descoberta do jogo. A última vez que fiquei feliz com isso em um mundo aberto foi em 2022 com Elden Ring. Chega a ser poético como você se depara com coisas, como uma construção aparentemente abandonada, e acaba tendo um pedacinho de lore ali, como um acampamento secreto de cultistas.

Crimson Desert abraça com carinho o jogador curioso, pena que ele derrapa na hora de recompensá-lo.
A parte técnica
Eu poderia descrever a parte técnica de Crimson Desert com uma única frase. Sublime demais. É chover no molhado falar que o jogo é absurdamente lindo. As construções, vegetações, animais, modelos de inimigos… ah, e as armaduras, tanto dos personagens quanto dos cavalos. É um dos melhores AAAs que eu já vi no que diz respeito ao design das armaduras.
Os visuais estonteantes são acompanhados de uma trilha sonora que é uma das melhores que eu já ouvi em um game. Todo o trabalho sonoro do jogo foi muito bem feito e é digno de virar referência. Contudo, alguns elementos me incomodaram e muito.

As expressões faciais são incompatíveis com os belos visuais do resto do jogo e quebram demais a imersão na narrativa (que já é ruim). Outro ponto grotesco é a direção de cutscenes, temos cortes bizarros, frutos do DNA de MMO da equipe, que chegam a ser hilários, dando um tom cômico para cenas que deveriam ser chocantes.
O desempenho, mesmo no PS5 Pro rodando no modo balanceado, não é dos melhores. Leves quedas de frames acontecem com frequência e podemos ver texturas, objetos e NPCs sendo carregados a todo instante. A Pearl Abyss deu uma tropeçada considerável nesse quesito.
Review de Crimson Desert – Vale a Pena?
Encerro esse review de Crimson Desert dividido de uma forma que nenhum outro jogo me deixou antes. Ele tem um leque amplo de elementos que são fantásticos e deveriam virar benchmark na indústria. Contudo, ele também apresenta outros tantos que são terríveis e nem mesmo o menor dos estúdios e sem orçamento ousariam cometer. Como eu preciso cravar uma recomendação, digo espere para a maioria dos jogadores.
Os desenvolvedores estão bem intencionados e estão aplicando várias melhorias de qualidade de vida e desempenho, tornando a experiência muito melhor. Para os jogadores que adoram uma boa história, recomendo cautela e esperar um trial ou coisa do tipo. A narrativa definitivamente não é o foco aqui. E para os exploradores e os acólitos de gameplay, que gostam de experiências sandbox, meu conselho é: vai fundo!
Crimson Desert
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